Memória de um Rio
No dia 21 de setembro de 2008, a Prefeitura Municipal de Salvador inaugurou o projeto de macro drenagem, infra-estrutura e urbanização da “nova” Avenida Centenário. Com o objetivo de acabar com os alagamentos nos períodos de chuva e proporcionar lazer e conforto para a população, o rio dos Seixos foi canalizado e coberto por uma superfície de concreto. Equipamentos de ginásitica, iluminação, parques infantis, jardins, pista de cooper, cliclovias e uma nova pavimentação foram construídos, e a obra, segundo dados da Prefeitura, foi aprovada por 86% da população. !br!Segundo Lafayette Dantas da Luz, professor doutor do Departamento de Engenharia Ambiental da Escola Politécnica da UFBA, um estudo ambiental foi requerido e utilizado para a viabilização das obras, mas as análises apresentadas no mesmo comprovavam que o rio dos Seixos estava em fase de recuperação e que em alguns pontos era possível encontrar peixes e vegetação. “Era um dos rios mais limpos da cidade. A bacia da Barra é uma que tem o maior número de casas ligadas à rede de esgoto, ou seja, menor possibilidade de o esgoto ser lançado no rio, o que de fato estava acontecendo. Nas amostras coletadas, verificamos que já havia vida no rio e que ele estava em um processo adiantado de recuperação”, conta Luiz Roberto Santos Moraes, professor pós-doutor em Engenharia Sanitária da UFBA.!br!Outras obras semelhantes nos rios Lucaia e do Imbuí estão sendo planejadas. Vê-se que, para solucionar o problema de esgotamento sanitário da cidade, os rios estão sendo tapados e os problemas escondidos debaixo do tapete. De acordo com Lafayette Dantas, a população não acredita numa revitalização e apóia obras deste tipo por uma questão cultural e por não ter memória do que seja um rio em Salvador. O rio não é mais rio, passa a ser encarado pela sociedade como um canal de esgoto. “Cada vez mais a gente está esquecendo que temos rios. Cada vez mais está se perdendo o registro histórico e concreto de você ver a paisagem e enxergar um rio. É uma opção estúpida cobri-los, que cada vez mais artificializa a cidade e seus elementos naturais serão esquecidos”, lamenta Dantas. “A população precisa ser melhor informada sobre como o homem maneja a cidade, sobre quais interesses são defendidos”, defende Moraes. “É preciso resgatar para o desenho urbano de uma cidade as características naturais e a água tem um apelo muito grande. Trabalhar para mostrar que ele não é um canal, não é uma vala de esgoto, mas um recurso natural em que as pessoas poderiam estar desfrutando é uma obrigação, é de extrema importância.”!br!A revitalização pode custar até mais caro do que a cobertura dos rios, mas é um preço a pagar por um passado sem políticas públicas adequadas e uma gestão consciente da cidade em que vivemos. Dantas afirma que “é uma questão de opção: o que é que nós queremos da nossa cidade? É uma coisa que tende a mudar nossa cabeça, nossa cultura e a percepção do ambiente da nossa cidade”.!br!!br!Agradecimentos a Rodrigo Fiusa pela disponibilização de algumas fotos, a Lafayette Dantas e Luiz Roberto Moraes pela contribuição com textos para este projeto.

Link: http://www.quikmaps.com/show/107967

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Created by camilaqueiroz on June 25, 2009
Last modified on June 29, 2009